Entrevista: 'Febre amarela está relacionada à falta de investimentos sociais'

Data: 16/02/2017

Até a última sexta-feira (10), segundo registro publicado pelo Ministério da Saúde, foram confirmados 230 casos de febre amarela. Ao todo, foram registrados 1.170 casos suspeitos, sendo que 847 permanecem em investigação e 93 foram descartados. Dos 186 óbitos notificados, 79 foram confirmados, 104 ainda são investigados e 3 foram descartados. Os estados de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Norte e Tocantins possuem casos em investigação, segundo o órgão.
 
Apesar do elevado número de casos, na opinião do pesquisador José Fernando de Souza Verani, da Escola Nacional de Saúde Pública, não há configuração de caso da doença em áreas urbanas. Segundo ele, que desenvolve atividades de pesquisa e ensino nas áreas de imunização e sistemas de vigilância em saúde, com ênfase na vigilância epidemiológica, casos humanos de febre amarela silvestre são registrados anualmente, uma vez que o vírus é circulante nas florestas e o homem está cada vez mais perto dessas áreas de mata.
 
Em entrevista ao Informe ENSP, Verani explicou o papel da vigilância, alertou para a ineficiência das ações de saneamento e combate ao vetor responsável pelo ciclo urbano da doença (Aedes aegypti), além de reforçar a necessidade de a população em áreas de transmissão silvestre ser vacinada.
 
Doses de Vacina – Ministério da Saúde
 
Desde o início deste ano, o Ministério da Saúde tem enviado doses extras da vacina contra a febre amarela aos estados que estão registrando casos suspeitos da doença, além de outros localizados na divisa com áreas que tenham notificado casos. No total, 9,9 milhões de doses extras foram enviadas para cinco estados: Minas Gerais (4,5 milhões), Espírito Santo (2,5 milhões), São Paulo (1,2 milhão), Bahia (900 mil) e Rio de Janeiro (850 mil). O quantitativo é um adicional às doses de rotina do Calendário Nacional de Vacinação, enviadas mensalmente aos estados.
 
Informe ENSP: Como o senhor avalia o elevado número de casos confirmados e as mortes ocasionadas pela febre amarela?
 
José Fernando de Souza Verani: Enxergo com muita apreensão a situação da febre amarela no Brasil. Falamos de uma doença conhecida por nós desde o início do século XX, e que tem sido monitorada desde então. Na atualidade, casos confirmados de febre amarela são constantes, ocorrem praticamente todos os anos e sempre relacionados à epizootias, em outras palavras, à mortandade de macacos. Mas isso tem se repetido nos últimos anos.
 
Informe ENSP: É correto afirmar o país vive um surto de febre amarela?
 
Verani: Sim. Temos número relativamente grande de casos de FA em humanos, o que não surpreende porque o vírus circula sempre, ou seja, é circulante nos macacos nas áreas rurais, de florestas. O que tem mudado, de forma brusca e frequente, é a aproximação dos estabelecimentos humanos, da civilização, junto aos espaços silvestres. Essa ação, além de reduzir o espaço dos silvícolas, promove maior contato entre macacos e humanos. Isso acontece no Brasil, África e, por essa mesma razão (a invasão do meio ambiente, áreas de florestais, ou seja, áreas silvestres de circulação de vírus), tivemos surtos e epidemias de ebola assustadores, por exemplo. Quando o homem não imunizado adentra essas áreas de mata, o ciclo silvestre da febre amarela se estabelece.
 
Quando essa transmissão se passa no meio urbano, com o vetor aedes egypti e cadeias de transmissão estabelecidas, temos o fenômeno da urbanização da FA. No cenário atual, ainda não temos evidência de cadeias de transmissão urbana.
 
Informe ENSP: Algumas reportagens criticaram o papel da vigilância, uma vez que a morte de macacos, instrumento reconhecido como evento sentinela para febre amarela, já ocorriam no interior de Minas Gerais. O sistema funcionou de maneira adequada?
 
Verani: A vigilância funcionou bem. As vigilâncias estão funcionando bem e tiveram conhecimento dessas epizootias. No Rio de Janeiro, há poucos meses atrás, tivemos um episódio com a morte de 16 macacos, e a Fiocruz foi acionada por essa razão. Descobriu-se que um herpes vírus provocou a mortandade, ou seja, o inverso do processo da febre amarela. Os macacos foram infectados com os herpes vírus humanos, por meio dos restos de comida, lixo de humanos, e, como não tinham imunidade, foram infectados e morreram. A vigilância monitora. A epizootia é algo relativamente fácil de perceber porque vem à tona muito rápido.
 
Quando começam a aparecer macacos mortos em praças públicas, por exemplo, há um alerta que é respondido muito rapidamente. A vigilância monitora isso o tempo todo. Quando o primeiro caso ocorre em humanos, aciona-se o alarme da secretaria estadual de saúde, que notifica o Ministério. Esse mecanismo funciona. A escolha é: estamos no momento de vacinar somente as áreas de risco? 
 
Informe ENSP: Como o senhor falou anteriormente, a febre amarela é uma doença reconhecida desde o início do século passado, temos uma vacina altamente eficaz e a vigilância tem funcionado. O que contribuiu para esse “boom” de casos?
 
Verani: No meu ponto de vista, o número elevado de casos confirmados de FA nos remete a uma situação que não vem de hoje, e está relacionada à falta de investimentos sociais. Não investir no social atrasa o país em 100 anos; e estamos atrasados. O governo escolheu não investir no social. De fato, a transmissão ainda não está estabelecida em áreas urbanas no Brasil, mas essa possibilidade é preocupante porque poderemos ter casos em todas as cidades brasileiras - se não houver a imunização adequada. Já está claro: não cuidamos do saneamento e da proliferação do mosquito (no caso, o aedes). Os Estados estão quebrados, falidos, E a vacina acaba sendo o instrumento de controle efetivo.
 
Informe ENSP: O senhor considera que a vacinação em massa seria a melhor estratégia a ser tomada atualmente?
 
Verani: Não! A vacina, embora muito boa, contém alguma reatogenicidade e o risco de reações adversas em grupos populacionais específicos, existe. A vacinação de massa não é aplicável, portanto, para prevenir a infecção pelo vírus da FA. Trabalha-se com a vacinação de bloqueio, em que é possível romper a cadeia de transmissão do vírus e ter cautela em relação a quem recebe a vacina. Trata-se de uma vacina eficiente, de qualidade, produzida por nós, e apenas uma dose é suficiente para proteger a população, embora, no Brasil, o esquema recomendado seja o de 2 doses, naquelas áreas de risco. É preciso ressaltar que tais áreas já configuram, hoje, quase a totalidade do país. No atual estágio da cadeia de transmissão, onde o contato com os macacos é cada vez maior, a ampliação da vacinação no esquema vacinal preconizado pode ser considerado.

Fonte: ENSP

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